Uma característica recorrente em indivíduos coletivistas é imaginar que eles sabem o que é melhor para todo o resto. Sendo assim, podem fazer o que lhes der na telha, pois estão respaldados por um “bem comum maior”, ainda que, na prática, esse bem comum na verdade não ocorra e as medidas adotadas inclusive piorem a vida da maioria. O coletivista acha que a sociedade pode ser moldada a partir das intenções de um grupo seleto de burocratas e se julga, portanto, um engenheiro social.
O movimento cicloativista mundial (e o brasileiro em particular) se encaixa perfeitamente nessa premissa. Não significa dizer que todo ciclista é de esquerda, ou que todos que gostam de pedalar necessariamente apoiem determinadas atitudes. Me refiro aqui especificamente à parcela organizada e com muita voz em veículos de comunicação e um forte lobby em câmaras municipais e prefeituras mundo afora. E é o lobby e a pressão midiática que permitem a adoção de políticas que beneficiam alguns em detrimento de todo o resto.
Considerando não existir medida estatal capaz de produzir resultado 100% positivo para a totalidade da população, o que importa do ponto de vista prático, em qualquer ação pública, é: esta ação está melhorando a vida da maioria dos indivíduos ou de apenas alguns deles? E mais: essa ação está piorando a vida de mais gente do que está melhorando? O caso das ciclofaixas em São Paulo fala por si só.
Recentemente, em uma publicação da Folha de São Paulo, o “consultor de políticas de mobilidade urbana” Daniel Gruth apresenta um comentário a respeito de uma pesquisa realizada pela ONG Transporte Ativo e pela Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo com cerca de 1800 indivíduos a respeito do perfil dos ciclistas na capital paulista. Alguns dos achados tidos como positivos pelo consultor: Aumento de 500 para 1245 ciclistas na Eliseu de Almeida, aumento de 977 para 2112 ciclistas na Avenida Paulista e surgimento de ciclistas na Avenida Faria Lima. Ele cita esses números e o aumento percentual como se fossem grandes coisas, mas é preciso lembrar que 100% de aumento em um número que era baixo não quer dizar nada. Se você tem mil ciclistas em um universo de 2 milhões de pessoas e tem um aumento de 100% entre os ciclistas, a porcentagem de ciclistas dentro do grupo maior continua ínfima. É importante analisar o número absoluto de pessoas que circulam por essas vias e comparar. Considerando que o número de pessoas que se locomovem de carro, de ônibus, de metrô ou mesmo a pé é na casa dos milhares, o número de ciclistas é completamente irrelevante, mesmo após a adoção extensiva de ciclofaixas e vias.
Por isso a pesquisa conclui, na melhor das hipóteses, que o número de gente usando as vias continua ínfimo se comparado ao número total de deslocamentos.
E era esperado. Em NYC, cidade na qual ciclovias e faixas foram criadas em um enorme numero, após grande discussão e com planejamento bem mais organizado, o efeito prático também foi irrisório. A porcentagem de pessoas que utiliza a bicicleta como transporte público passou de 1% para cerca de 3%, um “aumento de 300%” mas que em números absolutos também não quer dizer nada. As pessoas continuam usando metrô, andando a pé, usando carros, taxis e ônibus. A bicicleta não foi a panacéia que resolveu todos os problemas de mobilidade de Nova Iorque. Na prática mudou pouca coisa. Da para dizer com a maior cara de pau que a medida foi um sucesso? Evidentemente que não. E o pior é que as prefeituras de NYC e de São Paulo (e as entidades cicloativistas), propositalmente, não fazem um estudo para ver o efeito negativo que essas mesmas vias tem (ou alguém é hipócrita o suficiente de achar que uma faixa vazia ou pouquíssimo utilizada no meio de Manhattan ou da Avenida Paulista não atrapalha ninguém)?
O erro dessa gente é imaginar que governos mudam pessoas, que engenharia social é possível. Não é. A bicicleta não é popular na Europa porque algum político criou do dia para a noite 300km de ciclovias. A bicicleta é popular na Europa porque por diversas gerações, ao longo de séculos, as pessoas andam de bicicleta, por iniciativa própria. O governo investe em ciclovias lá porque as pessoas andam de bicicleta, e não para estimular as pessoas a andarem de bicicleta. É fundamental entender a diferença.
Fica o alerta: enquanto o movimento cicloativista imaginar que basta impor, de cima para baixo, o uso da bicicleta, o efeito prático que ele vai conseguir é praticamente nulo. Na melhor das hipóteses, vai se gabar de aumentos de 100% em cima de números pífios.
