A esquerda e suas palavras vazias e ordinárias.


O discurso de esquerda é especialista em apelar à emoção do interlocutor. Por meio de palavras bonitas muito mais focadas em demonstrar sentimentos vagos e tentativas de emocionar o ouvinte, a esquerda mostra frequentemente que é vazia em termos de conteúdo. É um discurso muito mais estético do que ético.

As posições defendidas pela esquerda são frequentemente vazias, desprovidas de qualquer conteúdo. Ao retirarmos os artifícios dialéticos e os apelos à emoção, não costuma sobrar muita coisa além de erros grosseiros de diagnóstico com relação a problemas centrais da humanidade, baseados em ideologia barata que enxerga o mundo de forma pueril.

Vamos analisar rapidamente alguns trechos de um texto de Juca Ferreira, sociólogo e Ministro da Cultura do Brasil, publicado na Folha. Trechos destacados em negrito. Não reproduzo o texto todo por mera questão de “direitos autorais”. Comentários abaixo:

“Neste início de século, após décadas de equívocos de toda sorte, nossas cidades tornaram-se inóspitas, sinônimos de inchaços, de desigualdades, de baixa qualidade de vida, violência, gigantescos deficits habitacionais e de infraestrutura, de degradação do meio ambiente urbano, poluição de todo tipo e graves problemas de mobilidade. É triste, mas nossos rios urbanos viraram esgotos.”

Início do texto. O autor constata uma série de problemas que de fato existem e são conhecidos por todo cidadão que vive em uma média ou grande cidade, até ai nada de novo. Perceba, entretanto, o apelo à emoção já aparecendo.

A ausência de uma reforma agrária que criasse condições de vida decentes para as populações rurais associou-se a um projeto de desenvolvimento econômico concentrado em algumas regiões metropolitanas, baseado no estímulo ao consumo de bens duráveis e concentrando nas cidades a oferta de serviços básicos de saúde, educação e programas de habitação.


a terra urbana virou uma mercadoria muito mais valiosa e a especulação imobiliária passou a reinar em nossas cidades. Em 1960, mais da metade da população brasileira estava vivendo no meio rural; dez anos depois, a equação se inverteu. Em pouco mais de 50 anos mais de 90% de nossa população passou a habitar o meio urbano. “

Aqui os erros de diagnóstico já começam. A “ausência de reforma agrária” nada tem a ver com o fenômeno de migração do campo para a cidade. Em todas as civilizações do mundo houve concentração de indivíduos nos locais nos quais existia maior dinamismo de mercado. As capitais tendem naturalmente a atrair mais gente do que as cidades do interior por fornecerem maior possibilidade de trocas. Isso sempre ocorreu, mas ficou muito mais evidente após a revolução industrial e a melhoria nas técnicas de agricultura que tornaram o trabalho braçal do camponês cada vez mais inútil em virtude da mecanização. E foi por isso que a população do campo migrou para a cidade em massa. Isso está longe de ser um fenômeno exclusivo do Brasil. É observado em diferentes culturas e continentes ao redor do globo. Tentar colocar a culpa disso na “falta de reforma agrária” é uma clara tentativa de colocar a pretensa ausência de reforma agrária em pauta como solução para um problema que nada tem a ver com ela.

Além disso a concentração de serviços básicos como saúde e educação nas grandes cidades é obviamente maior pois a demanda por esses serviços também é maior, em virtude da maior atividade econômica desses locais. E quanto a isso o Estado pode fazer muito pouco. Ele até pode até tentar criar cidades planejadas aleatoriamente no meio do nada (caso da China por exemplo), mas as pessoas só serão atraídas para essas cidades caso a atividade econômica floresça ali. E isso o Estado não pode garantir.

“Nossas ruas e espaços públicos estão deixando de ser espaços de sociabilidade, transformando-se em meros canais de tráfego…”

Ora, e quem disse que a função precípua de ruas e avenidas é ser um espaço de sociabilidade? Ruas por definição são conexões entre locais para o tráfego de pessoas e coisas. O contato social pode ou não ocorrer nas mesmas. Dizer que ruas são espaços antes de tudo destinados à sociabilidade é uma ideia perigosa. Ao propor que a principal função das ruas é ser “um espaço de sociabilidade”, um político estúpido poderia propor o fechamento de uma avenida importante da maior cidade da América Latina e atrasar a vida de milhões de pessoas, por exemplo.

“O Estado brasileiro dos últimos anos distribuiu renda, universalizou o acesso a muitas políticas públicas, realizou grandes investimentos em infraestrutura. Mas a verdade é que tais ações não resultaram numa reconfiguração democrática do nosso território. “

Passando a mão na cabeça do governo do PT (como não poderia deixar de ser, afinal foi indicado para ministro tanto por Lula como por Dilma), mas isso nem é o mais preocupante. O mais intrigante é tentar entender (porque o autor propositalmente não deixa claro) o que ele quer dizer com “reconfiguração democrática do nosso território”.

” Aos poucos estamos formando um novo entendimento a respeito da relação entre cidade, cultura e democracia. Sabemos que não há salvação para o planeta sem outra mentalidade e comportamento.”

Já quase no fim, novamente uma série de palavras vazias, aliadas a um apelo à emoção ambientalista com a arrogância de colocar o planeta Terra inteiro em risco caso a “revolução democrática e cultural” não aconteça nas cidades.

Resumindo: palavras, apenas palavras. Um texto inteiro dedicado a tentar atacar os “problemas da cidade moderna” apontando como solução uma série de subjetividades que tentam esconder a ideologia coletivista autoritária (visto ser o todo mais importante que as partes) que é tão característica à esquerda.

Tenho uma teoria para isso: A esquerda atualmente tem que tomar cuidado para dizer o que de fato pensa caso contrário o autoritarismo ficaria evidente já de cara. Por isso eles precisam florear o discurso e deixa-lo o mais vago possível, a fim de enganar o leitor que desconheça a intenção por trás da proposta.

Conhecendo esse tipo de gente, vou tentar traduzir e forma resumida o que eles querem dizer com alguns termos (já que eles mesmos perderam a coragem):

Cidade: Um mero agrupamento de indivíduos, assim como em uma colônia de cupins ou uma colméia de abelhas. E, tal qual uma colméia, há as rainhas que podem decidir unilateralmente o que é melhor para todos os demais.

Cidade democrática: Toda aquela cidade que seja guiada pelas leis do Estado e de seus líderes iluminados, e não necessariamente pelos indivíduos que morem na determinada área geográfica. Na melhor das hipóteses, os moradores poderão participar de “conselhos populares” que terão seus líderes indicados pelos partidos aliados e por “movimentos sociais”. Cidade democrática é aquela que atende a um ideario coletivista de que tudo é de todos. Cidade democrática é aquela na qual o indivíduo vive para sustentar a cidade, visto que a vida do “coletivo” é mais importante que a vida dele e de sua família. Cidade democrática é aquela que permite que o fumante de crack ande livremente pelas ruas e até tenha um emprego e habitação financiados pela prefeitura. Cidade democrática é aquela na qual o prefeito “visionário” pode eliminar 300km de faixa de rolamento para criar outras faixas para um tipo de transporte que não é utilizado nem por 5% da população.

Especulação imobiliária: Aquela atividade na qual o “capitalista malvado” detém a propriedade de imóveis estrategicamente localizados para fim de investimento, pretendendo lucrar no longo prazo com a valorização dos mesmos. (Ironicamente, o principal aliado da especulação imobiliária são as leis de zoneamento das cidades que impõe limites para as construções e, por limitarem a oferta de imóveis e novas construções, levam o preço dos que já existem para cima.)

Estado: O Estado é composto pelas cabeças intelectuais iluminadas que sabem o que é melhor para a vida de todo o restante da população. O Estado é a abelha rainha. O cidadão é o operário que existe para servir a rainha e a colônio, em prol do “bem comum”.

Planeta: Um mero conjunto de cidades. Sem um planejamento central por parte do Estado (abelha rainha) o planeta tenderá inexoravelmente ao colapso. Por isso o cidadão deve deixar nas mãos dos reguladores estatais e seus indicados as decisões referentes às cidades.

Em suma, cuidado. Cuidado quando alguém de esquerda te propõe uma “cidade democrática” para te salvar do “colapso do planeta”. O que ele quer é mais poder sobre sua vida pois as coisas não estão indo da forma que ele imaginava.

Há uma série de problemas urbanísticos no mundo? Sem dúvida. Cabe ao Estado limitar as liberdades individuais e brincar de planejador central detentor de uma bola de cristal para tentar resolver os mesmos? De forma alguma.

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